domingo, 3 de abril de 2011

E continua...

    Cada dia passa sendo arrastado com pesadas correntes e ao mesmo tempo tão rápido quanto a velocidade da luz. Se imagine correndo o mais rápido que puder carregando o mais pesado que conseguir. Exagero? Nem tanto. Você praticamente se sentiria com o mundo nas costas e não tendo mais o que fazer além de correr  com ele para se esconder. Para o esconder. Para o proteger.
    Continue imaginando. Os problemas do mundo poderiam ser resolvidos por ele mesmo, mas fazem questão de que você continue envolvida com tudo isso. E você continua correndo.
    E continua correndo.
    E continua correndo.
    E não adianta olhar para os lados, não adianta chorar, ou pedir ao seu deus, ou se esconder dele, porque o mundo está nas suas costas e você não consegue largá-lo nem ao menos para dormir. E ele povoa seus pensamentos, é a sua preocupação e quando você percebe o quão pesado é, e quando você percebe o quão fatigada está, e quando você percebe que não consegue mais correr e cai, aos prantos, abandonada às traças, sobrevivendo do próprio sangue, te convencem de que você não tem o menor direito de reclamar. E você continua correndo.
    E continua correndo.
    E continua correndo.
    E começa a sangrar pelos dedos, mas não sangra pelo excesso de uso e sim pela falta dele. E começa a ganhar calos nos ombros de tanto aguentar isso tudo que lhe implicam. E continua correndo.
    E continua correndo.
    E continua correndo.
    E então, quando você não aguenta mais viver e começa a escutar a felicidade alheia e começa a tentar entender o porquê de eles não estarem carregando o mundo e começa a se desentender com quem te deu essa tarefa tão sem misericórdia e começa a tentar fugir.
    E começa a fugir.
    E começa a fugir.
    E então você tenta se matar, claro que tenta se matar, todo mundo que perde o controle tenta se matar, não aja como se fosse impossível, querido. E você somente tenta, porque é idiota, orgulhoso e tem medo de como o mundo vai se virar sem você, porque talvez o mundo tente e consiga sobreviver sem você. E então você continua fugindo.
    E continua fugindo.
    E continua fugindo.
    E então você desiste de tentar se matar, você fica tão viciado nas tentativas que você só tenta tentar se matar. E você começa a se entediar, pobre de você, precisa de amigos iguais a você e você faz amigos iguais a você e você imagina amigos iguais a você e você consegue aliviar um pouco sua imensa vontade de largar algo que talvez sobreviva sem você. E você continua fugindo.
    E você continua fugindo.
    E você continua fugindo.
    E você se dá conta de que não existe nada além de carregar a merda do seu mundo nas costas. E reclamar do seu fardo o tempo todo. E se cortar para parecer uma criança problema em um mundo problema que não reclama dos seus problemas. E fode o seu corpo problema somente para se aliviar de problemas mentais. E você se cansa disso tudo porque não há mais lugar em você para cortar, agora você é um corte e como um corte você tem que se curar. Então você cala a sua boca, junta seus pedaços, coloca seu fardo nas costas e continua correndo.
    E continua correndo.
    E continua correndo.
    E nunca, mas nunca, eu repito, nunca irá parar de correr. Velhos hábitos nós nunca largamos, certo? São eles que nos largam.

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